Agricultura e Agronegócio

Agrotóxicos na berlinda | Mitos e Verdades

Uma excelente matéria foi publicada na Revista Pesquisa Fapesp (setembro/18) sobre o uso de agrotóxicos no Brasil. Como uma das maiores potências agrícolas do planeta, o Brasil é também um dos grandes consumidores de agrotóxicos, que são substâncias químicas ou biológicas que conferem proteção às lavouras contra o ataque e a proliferação de pragas, tais como insetos, fungos, bactérias, vírus, ácaros, nematoides e ervas daninhas.

Agrotóxicos no Brasil

A venda desses produtos no país movimenta em torno de US$ 10 bilhões por ano, o que representa 20% do mercado global, estimado em US$ 50 bilhões. Em 2017, os agricultores brasileiros usaram 540 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos, cerca de 50% a mais do que em 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ligado ao Ministério do Meio Ambiente. O debate sobre o uso de agrotóxicos acirrou-se nos últimos meses em função do Projeto de Lei (PL) nº 6.299/02, aprovado em uma comissão da Câmara dos Deputados em junho. Apresentado em 2002 pelo atual ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o projeto propõe alterar as regras para registro e uso de novos defensivos agrícolas. Para entrar em vigor, ainda precisa ser aprovado pelo plenário da Câmara e do Senado e receber sanção presidencial.

O emprego em larga escala desses produtos, também conhecidos como pesticidas, agroquímicos e defensivos fitossanitários ou agrícolas, é fruto de diversos fatores. Por ser um país tropical, a agricultura brasileira não conta com o período de inverno para interromper o ciclo das pragas, como ocorre em países de clima temperado. O aumento do uso desses produtos está relacionado à evolução da produção agrícola – a safra de grãos saltou de 149 milhões de toneladas em 2010 para 238 milhões em 2017 – e da expansão no país da monocultura, sistema que altera o equilíbrio do ecossistema e afeta a biodiversidade, favorecendo o surgimento de pragas e doenças.

Fato ou mito? 

A matéria da Revista Pesquisa Fapesp questiona se os agricultores brasileiros realmente utilizam os agrotóxicos excessivamente. Por ter uma das maiores áreas agrícolas do mundo e ser um país predominantemente tropical, o Brasil é o maior mercado global de produtos fitossanitários em números absolutos. No entanto, quando se relaciona o volume de defensivos com a área plantada (em US$/ ha), o Japão aparece em 1º lugar, seguido da Coréia do Sul, Alemanha e França. O Brasil cai para sétimo lugar no ranking mundial do uso de defensivos por área plantada segundo um estudo elaborado na FCA-Unesp. O Brasil cai para 13º quando se analisa a taxa de consumo de agroquímicos pela produção agrícola (em US$/ ton). Nessa relação de volume de defensivos e produção agrícola, observa-se que nosso consumo é muito menor do que o do Japão, da França, Reino Unido e outros países.

Outro lado

O emprego de elevados volumes de agroquímicos nas plantações gera impactos diretos no ambiente, com a contaminação do solo e de fontes de água superficiais e subterrâneas (rios, lagos e lençóis freáticos), assim como na saúde humana. No Brasil, 84,2 mil pessoas sofreram intoxicação após exposição a defensivos agrícolas entre 2007 e 2015, uma média de 25 intoxicações por dia, conforme dados do Relatório Nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos 2018, elaborado pelo Ministério da Saúde. Para o engenheiro-agrônomo Edivaldo Domingues Velini, professor da FCA-Unesp Botucatu, o problema não está nos agroquímicos em si, mas, em algumas situações, na quantidade usada e a forma de aplicação. “O uso adequado e fundamentado no conhecimento é eficaz em reduzir os riscos associados aos agrotóxicos”, afirma. “O consumo de defensivos agrícolas no Brasil é compatível com o que é praticado em países que usamos como modelo de desenvolvimento e de segurança alimentar.”

Alternativas na mesa

A redução dos impactos diretos gerados pelos agroquímicos, de acordo com especialistas ouvidos pela reportagem da Revista Pesquisa Fapesp (setembro/18) passa pela adoção de novas tecnologias pelos grandes produtores agrícolas. São soluções baseadas em sensores, máquinas inteligentes que ‘conversam entre si’, internet das coisas e robotização, que podem auxiliar no uso mais adequado de diversos insumos, entre eles agroquímicos. Se a adoção de inovações tecnológicas é um meio de racionalizar o uso de agrotóxicos nas grandes produções, nas lavouras de alimentos cultivadas principalmente por pequenos produtores, um caminho é estimular o cultivo orgânico, isento de defensivos agrícolas. Além de minimizar o risco de contaminação, pode diminuir a intoxicação entre pequenos produtores rurais.

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